“Felizmente houve uma capacidade de resposta imediata e muito eficiente e o número de pessoas que já foi resgatado é muito superior àqueles que falta desencarcerar” – afirmou o Presidente da República, em visita oficial ao descarrilamento de um eléctrico, ontem, em Lisboa.

Marcelo devia, antes de mais, dar explicações ao país sobre o motivo para não ter estado presente naquela curva antes de o eléctrico se baldar. Apareceu uma hora depois e tal não se admite a um indivíduo que pode, em querendo, passar sinais vermelhos. Numa sexta-feira à tarde, em Lisboa, estranha-se como o próprio eléctrico conseguiu chegar a tempo ao seu descarrilamento, mas o Presidente da República tem batedores. No limite, o próprio Chefe de Estado é um batedor, pois não se exclui a hipótese de Marcelo ir na mota da polícia e o polícia sentado no Mercedes.

Mas depois, Marcelo também podia explicar esta sua afirmação e nomeadamente a alegria que encontra na capacidade de resposta imediata. Qual era a outra opção? Um eléctrico descarrilar no centro de uma capital europeia e o socorro só chegar uma semana depois, depois de se conseguir desenhar um muito complicado plano de resgate? Parece que o eléctrico descarrilou naquela gruta na Tailândia. O eléctrico ia tão lançado na Lapa que só parou em ปากเกร็ด.

Apesar do descarrilamento, os passageiros deviam naturalmente de estar satisfeitos, pois comprar um bilhete para ir de Campo de Ourique à Praça da Figueira e acabar numa semana na Tailândia em regime de pensão completa, ninguém se pode queixar, não obstante as escoriações.

Adiante, o Chefe de Estado também se congratula com o facto de àquela hora – uma hora depois de o guarda-freios virar a boneca – o número de pessoas já resgatado ser superior ao número de pessoas que falta desencarcerar. Uma espécie de visão económica do salvamento. Hoje, com certeza, Marcelo falará de uma saída limpa. E o Governo anunciará que Portugal conseguiu retirar os dois últimos passageiros antecipadamente, pois deviam ter lá ficado mais quarenta minutos.

Como se tudo isto não bastasse, Marcelo ainda louvou o “modo cuidadoso” como as operações de socorro decorreram, talvez por oposição ao modo pouco cuidadoso com que o guarda-freios desceu aquela rua. Bom, é cedo para concluir que a falha foi humana, pois tendo em consideração o estado do material, a culpa seria atribuída sumariamente ao amarelo.

Felizmente, a Carris, através do seu presidente que também teve a oportunidade de ver com os seus próprios olhos esse fenómeno raro que é o capotamento de um eléctrico, anunciou que vai instaurar um inquérito. E a imprensa logo fez a notícia: A Carris vai fazer um inquérito ao acidente. Qual era a outra opção? A Carris anunciar que não queria saber? “Isto só não capota quem não sai da garagem, temos muitos eléctricos, metade da viagem correu bem portanto vamos devolver metade do valor do bilhete que estes passageiros poderão descontar na próxima viagem de eléctrico, boa noite e boa viagem”, afirmava o pica-mor da Carris e pronto, ia tudo para casa, incluindo o Presidente da República.