Temos reparado que muitos dos convidados para as comissões parlamentares de inquérito apresentam falhas de memória. Tal pode dever-se a uma dieta rica em queijo ou a um pé direito demasiado baixo, no Parlamento, que faz com que muitos deles batam com a cabeça à entrada, recuperando a memória só algumas horas mais tarde, já cá fora. Mas talvez exista uma solução para esta amnésia conveniente. 

É o seguinte: Que tal começar a enviar as perguntas antes das comissões de inquérito, talvez até um mês antes? Os factos são factos – na verdade agora até são fatos – por isso não podem ser alterados. Mas ainda que alguém tenha a tentação de alterá-los, também aí poderá ocorrer uma prova evidente da culpa. 

Uma mente mais ingénua poderá ter dúvidas quanto a esta solução, por imaginar que o efeito surpresa é bastante importante e que se perde tal efeito ao revelar o que se pretende saber. Bom, os inquiridos já costumam saber ao que vão e então os seus advogados nem se fala. Creio que nunca ninguém se sentou no Parlamento à espera de responder a umas perguntinhas sobre o final da guerra dos tronos. 

O efeito surpresa é, portanto, muito limitado, mesmo não contando que há pessoas que falam e que dizem e até primos que falaram com um cunhado que sabe que a tia vai querer saber coiso e tal. 

Acontece que, mesmo sabendo ao que vão, podem alegar que não sabiam e que portanto lembram-se lá agora eles. Mas se souberem, já não podem dizer que não sabiam. Esta é, aliás, a grande gaita de se saber, é não se poder dizer que não se sabia. 

Não menosprezo, porém, a criatividade de um bom trafulha, pelo que esta solução também não é perfeita. O inquirido pode continuar a dizer que não se lembra, até esteve a estudar, mas passou-lhe. É simples. Tem de levar post-its, elásticos nos dedos, lembretes no telefone e até deve estar obrigado a mnemónicas. Por exemplo, “senhor deputado, não tenho memória, não me lembro, mas espere só um momento… ora bem, quantos degraus tem o Bom Jesus, em Braga?”, “são 581, segundo a Wikipédia”, “ora bem, então subir e descer dá…”, “dá 1162”, “justamente, então eu terei estoirado com cerca de 1162 milhões, porque é mais ou menos um milhão por degrau, subir e descer”. 

Enfim, fica a sugestão. Já toda a gente sabe do que se vai falar – é uma comissão de inquérito, não é um Verdade ou Consequência – por isso dando as perguntas e tempo para rever a matéria só cura a amnésia. É milagroso.