Admito que, quando ouvi banqueiros a pedirem uma comissão, ouvi “comichão”. Pensei que, por momentos, tinham feito um acto de contrição e pedido uma penitência em forma de sarna, o santo sacrifício da micose. Achei louvável. “Afinal têm coração”, pensei. 

Para os banqueiros, uma comichão para sempre era o mínimo. Um prurido eterno na virilha. Podiam estar com a massa toda numa ilha paradisíaca, mas não conseguiam parar de se coçar. Era justo e eu pagava para ver, até porque já se pagou. E bem. 

Depressa percebi, porém, que não era uma comichão que estavam a pedir, não se tratava de contrição alguma, querem é mais uma comissão, agora por levantamentos no Multibanco e transferências de toda a espécie. Dizem, com um ar muito indignado, que lá fora – ou seja, no resto do mundo, que ainda é bastante – ninguém percebe como é que em Portugal não se paga uma comissão por levantar o dinheiro.

Chega, portanto, a ser quase uma vergonha para os portugueses. Dá vontade de se pedir logo para pagar a tal comissão, num acto patriótico, para lá fora não pensarem que isto é o Texas. Então pessoas que nos últimos anos deram as poupanças de uma vida, os rendimentos de outra, parte do erário público, inclusivamente órgãos vitais do seu organismo para os bancos… ainda querem levantar dinheiro de uma caixa automática sem pagar nada por isso? Onde é que já se viu!?

Os portugueses, no que à banca diz respeito, estão muito mal habituados. Devem pensar que isto é tudo à borla. Ninguém paga nada, querem ver? 

O que dirão os banqueiros estrangeiros sobre as remunerações e as reformas dos banqueiros em Portugal? Se eles soubessem disso, haviam com certeza de propor que quando um português vai levantar dinheiro à caixa, o banco deve ficar com o dinheiro que o cliente pediu e o cliente é que leva a comissão.

É fácil. O Simplício vai à caixa e pede 40 euros. Pela portinhola sai 1 euro e meio e o banco fica com 38 euros e meio. Recebe o cliente a comissão pelo levantamento e o banco fica com o dinheiro. Assim é que devia ser, na certeza de que mesmo assim não chegava para pagar os salários, prémios e reformas dos banqueiros. Ajudava, vá.

Naturalmente que a nova geração de banqueiros  – ou os novos gestores – não tem culpa do que foi feito no passado. Se tudo correr como se espera, terão um dia culpa do que se está a passar agora, mas do passado não podem ser acusados. Todavia, a instituição que governam tem uma história e a probabilidade de essa história não ser famosa é elevadíssima. Devem por isso, no mínimo, evitar falar como se os portugueses fossem uma cambada de chulos a comer da gamela.

E devem dizer lá fora que, sim, em Portugal não se paga comissões por levantamentos, mas paga-se o banco todo. O mínimo é poder levantar o que sobrou – se sobrou alguma coisa – sem pagar mais por isso.