Até podia ir o próprio Salazar ao Você na TV, que eu mesmo assim não assistia. Não consigo assistir àqueles programas. Não por ter a mania que sou intelectual, porque eu em matéria de audiovisual consumo muita trampa e aprecio, porque podia ver só para cumprir pena. Aquela trampa é que não dá. Tenho imenso respeito por quem vê, mas eu não consigo. Entre partirem-me um dedo do pé ou obrigar-me a ver 20 minutos daquilo, pode ser o mindinho. O dedão é que não porque cá cenas. 

De repente, porém, só se fala no Você na TV, no Manuel Luís Goucha e no seu convidado de extrema-direita. 90% das pessoas que falam sobre o assunto não saberiam de tal entrevista, não fosse este escândalo que se montou. Daí que, o que está tudo a fazer é uma magnífica promoção ao senhor da extrema-direita, uma promoção que nem o Manuel Luís Goucha sonhou algum dia fazer. 

Sucede que tais programas convidam tudo, porque em Portugal não há pessoas. Isto é tudo muito bonito, mas falta povoar. Logo, qualquer alma consegue perceber que programas diários dá para levar tudo. Não podem ser só artistas e heróis da pátria porque isso não dava para fazer uma semana de show. Aliás, se o programa começasse na segunda, na terça já tínhamos de pôr no ar uma novela porque já não dava para talk show com pessoas interessantes.

Um programa diário em Portugal, que é praticamente só futebol e cortes nas pensões, é muito difícil de fazer. Não há pessoas nem temas. 

A estes programas das manhãs e das tardes já foi muita gente acusada de crimes, outros com evidentes problemas ao nível do raciocínio, pessoas traumatizadas, vítimas, agressores, tudo. Vai lá tudo. Desta vez foi o senhor da extrema-direita. Podia ser um acusado de violar a mãe, que deve ser o convidado de segunda-feira.

O extraordinário é dar-se importância a isto e acabar por se fazer de um passatempo para pessoas que não ouvem metade, um escândalo inteiro. O que não era nada, de repente é qualquer coisa. Os telespectadores da TVI que assistem ao Você na TV pensaram, muito provavelmente, que o senhor da extrema-direita era um novo chef que usava o salazar em tudo porque não pode ficar nada no tacho, derivado da crise, mas a opinião pública culta e informada conseguiu fazer disto tudo um grande golpe do Goucha, que quer promover a extrema-direita em Portugal. Sempre o medo da extrema-direita. Regozija-se tudo com o governo das esquerdas que conquistou uma maioria parlamentar, o protesto dos coletes amarelos – associado à extrema-direita – foi um fracasso, mas espera! A extrema-direita já conquistou os programas da manhã! O que se segue? As televendas?

Os portugueses – uma certa opinião pública – parecem aqueles pacientes que vão ao médico pedir uma doença qualquer. Não há qualquer ameaça de extrema-direita… mas veja lá bem, senhor doutor, aquela mancha ali não pode ser um bolsonaro? É que eu no outro dia vi dois homens no cinema e accionei o alarme de incêndio.  

Tanto quanto se sabe, o radicalismo costuma recrutar ora na internet, ora em grupos e sempre que haja um jovem revoltado com a vida. Não consta que seja em programas de televisão com uma audiência que não ouve metade e a metade que ouve percebe ao contrário. Provavelmente, o senhor da extrema-direita que visitou o programa do Goucha acabou por virar alguns telespectadores para a esquerda, pois gostaram muito de ouvir aquele rapaz comunista que cozinha sempre com o salazar.

Combater os radicais, tanto de direita e de esquerda, é fazer a democracia todos os dias. Não é disparar à toa sem saber muito bem para onde, como eu quando estou a jogar Fortnite. 

Isto é só um programa que convida tudo porque já se chegou ao fim dos portugueses. Desta vez foi este senhor que usa uma espátula, com zero desperdício de alimentos. Bom homem.