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Toda a gente esperava um homem grisalho, de barba, com um charuto na mão, mas em vez disso, o chão começou a estremecer à porta do estabelecimento prisional da Carregueira, começou a ver-se ao longe uma luz e, de repente, “teque-teca teque-teca teque-toca teque-toca teque-tuca teque-tuca”.

Era o novo Satu da Carregueira, inaugurado ontem pelo próprio Isaltino Morais, que o usou logo para ir para casa. «O Satu da Carregueira está a partir de agora à disposição da população prisional, estando inclusivamente prevista uma carruagem celular para o transporte de detidos», afirmou Isaltino, durante a inauguração.

Para além do Satu, o agora ex-recluso lembrou também que deixa, passado um ano, uma prisão mais moderna, mais desenvolvida, com mais habitantes e mais empresas. «O que era a Carregueira há um ano, minhas amigas e meus amigos detidos?», perguntava-se Isaltino. «Quem não se lembra da fila para o refeitório antes de fazermos a rotunda das celas? E quanto tempo levávamos do refeitório ao recreio antes da via rápida que passa pela lavandaria? Era tempo de lazer desperdiçado, minhas amigas e meus amigos detidos», continuou.

«E a animação que o Carregueira Retail Park veio trazer ao nosso recreio, hoje com mais esplanadas e aberto até mais tarde? Tudo isto para não falar na ponte pedonal, uma obra que já era reclamada pela geração anterior de reclusos, e que faz hoje a ligação entre a biblioteca e as casas de banho, evitando ter de passar pelo meio do recreio, que se tornava particularmente desagradável no inverno», acrescentou.

«No entanto, minhas amigas e meus amigos reclusos, perdoem-me se não quero cumprir mais nenhum mandato», concluía Isaltino, numa altura em que se ouvia “buuuu” na Carregueira. «Mas calma, calma», pedia Isaltino, «porque mais dia menos dia, de uma maneira ou de outra, há-de vir cá parar outro colega meu. Viva a Carregueira. Viva Portugal», e terminava assim um discurso com cerca de meia hora, que não podia ter sido maior para não atrasar o Satu da Carregueira, logo na viagem inaugural.