(Opinião) O drama para além da selfie

selfieAdmito que gostava quando me pediam, na rua, para lhes tirar uma fotografia. Quase sempre eram casais apaixonados, turistas ou um grupo grande. Certo é que eu gostava tanto que às vezes abeirava-me quando via alguém atrapalhado, fazendo-me à foto. Não para aparecer, mas para tirar.

“Desculpe, não se importa” – lá perguntavam ou então apontavam para a máquina, que é a linguagem universal. Então não posso!? É tudo o que eu mais quero! E lá fazia a fotografia, sempre com os maiores dos cuidados. Quando as máquinas começaram a ser digitais, ia depois ver o resultado com eles. Às vezes eles queriam ir embora mas eu continuava a analisar o trabalho e a oferecer-me para tirar outra ainda melhor. Quando as máquinas ainda eram de rolo, sem ser possível ver o resultado naquele momento, poderei ter cortado uma ou outra cabeça, só para imaginá-los lá na China a gritar palavrões chineses.

Ora, com o advento da selfie, fiquei sem trabalho. Nunca mais ninguém me pediu para tirar uma fotografia. Agora tiram sozinhos. Já me abeirei, mas era como se não estivesse ali. Ninguém quer saber. Esticam o bracinho e pimba.

Fica uma imagem muito pior, com um braço em riste, sem enquadramento e com uma ou várias caras enormes a olhar para cima como se estivessem num poço, mas as pessoas preferem a independência de conseguir tirar fotos sem ajuda à beleza de uma imagem cuidadosamente tirada por um prestável transeunte, um fotógrafo espontâneo.

Uma selfie no cume de uma montanha, onde não está ninguém, eu percebo. Numa praça com milhares de pessoas tenho mais dificuldade, até porque a selfie ficará tão próxima das caras que tanto podia ser naquela bonita praça como dentro de um armário.

Parece um filme de terror: No futuro, os álbuns de fotografias serão só caras, caras, caras, caras, caras, caras. E quando um casal rompe, já nem se pode cortar a outra ou o outro da fotografia, pois estão tão juntinhos para caberem na fotografia que é uma espécie de monstro com duas cabeças.

As selfies podem ser uma needie, claro que sim, mas quando há pessoas por perto podia voltar-se a pedir “o favor nos tirar uma fotografia”. E também se pode arranjar um nome bonito: #yourselfie

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Sobre o autor

Zé Pedro Silva
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