Anda cá Domingues, que eu defendo-te

antonio_domingues_1310O presidente da Caixa Geral de Depósitos lá acabou por se demitir e está tudo mais calmo agora. Foi levantado o recolher obrigatório. Já não temos à frente do banco público um perigoso indivíduo que nos ia furtar tudo para o seu paraíso fiscal nas Berlengas.

Esta foi a imagem com que ficou o presidente da Caixa demissionário. Da esquerda à direita, os partidos aplaudem e dizem que a demissão só peca por não ter sido entregue antes. Tanta unanimidade do poder político contra um só indivíduo leva a crer que o indivíduo só pode estar certo.

Ora, António Domingues tinha negociado com o Estado – accionista do banco – um conjunto de requisitos que foram aceites. Entre eles estava a dispensa de entrega da declaração de rendimentos e património no Tribunal Constitucional. Mas Domingues entregou a declaração de rendimentos na própria Caixa e também tem as incompatibilidades escarrapachadas nas Finanças. Para além disso, imagino que cumpra os requisitos do Banco de Portugal para administrar bancos, profissão que já exerce há umas décadas.

A circunstância de não querer entregar a declaração no Tribunal Constitucional não faz de Domingues um bandido. Até porque os bandidos não costumam ter medo de mostrar as declarações de rendimento e património porque o rendimento e património costuma ser de familiares, advogados ou amigos de infância.

O que aconteceu foi que António Domingues encontrou-se, de repente, no meio da política portuguesa. Era mais um, no meio deles, naquela gritaria. Pelos vistos não gostou. Nem ele nem a maioria dos gestores com mérito, que também não querem ter de andar a mostrar os rendimentos a 20 polícias dos bons costumes, porque se parte do princípio que eles são da laia de quem os convidou.

Desde que chegou ao banco público, Domingues não saiu da berlinda. Foi com Passos, que o acusou de andar a cozinhar recapitalizações às escondidas, depois foi a escolha da sua equipa e finalmente a declaração de rendimentos. Daqui em diante, não seria diferente. E a palavra do Estado – seu accionista – é a palavra de um maluco que uma vez diz uma coisa, no outro dia diz outra. Estar a levar com isto ou poder trabalhar tranquilamente no sector privado, sem ter de se apresentar de quinze em quinze dias na esquadra… de repente, o que é que parece melhor?

Mas enfim, uma maioria dos portugueses parece não se incomodar com o facto de a Caixa Geral de Depósitos continuar à mercê das tricas políticas e aceita como boa esta fantochada das transparências para inglês ver, por isso está tudo bem. É mais uma boa notícia.

Zé Pedro Silva

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