«Eu parece-me que ia na senha 240 quando nos casámos… Ou ia na 241?» A memória já atraiçoa a senhora dona Dulce, que se casou com o senhor Alfredo há cinquenta senhas, na fila da Segurança Social de Vila Nova de Gaia.
«Éramos uns miúdos», relata Alfredo, que explica que se conheceram no início da fila, onde estavam os dois a fazer recados aos pais, «já lá vão mais de quatrocentas senhas», recorda emocionado.
Mas o casal não se queixa, como explica Dulce: «Foi um percurso simpático… Até à senha 140 foi um bocado duro porque estivemos lá fora ao relento, mas depois entrámos, entretanto casámos, tivemos quatro filhos, o Guichet Maria, a Joana Modelo Cinco, o Afonso Formulário e o Pedrinho Subsídios, que é o mais novo, faz hoje vinte e cinco senhas».
Finalmente, depois de uma vida inteira na fila, Dulce e Alfredo preparam-se agora para ser atendidos, mas não escondem a tristeza, pois o senhor que estava à frente, de quem eram muito amigos e que conheciam também desde miúdos, sendo inclusivamente padrinho de casamento, desistiu esta manhã. Os seguranças ainda tentaram animá-lo, mas era tarde.
«Tantas senhas depois, o pobre Armando foi-se assim de repente. Nem nos conseguimos despedir…» - lamentou Alfredo, agarrado à senha que o amigo lhes deixou.